terça-feira, 11 de novembro de 2014

Marcas na janela

  Você se foi mais uma vez. Foi. Sem me avisar, ao menos ousou se despedir. Ainda vejo sua imagem refletida no espelho, suas marcas de dedo na janela.
  Algumas peças de roupas estão espalhadas pela casa, sua jaqueta pendurada ao lado da porta. O seu perfume exala por cada comodo. Alguns fios de cabelo na fronha alva, e por falar nisso, você gostava tanto daquele travesseiro. Ainda coloco uma segunda xícara todas as manhas e fins de tarde na mesa. Nos dias ensolarados vou ate varanda e fico observando. Talvez. Talvez você apareça de surpresa. Você sempre gostou de surpresas. Como essa que você acabou de fazer.
  O livro que você estava lendo ainda continua na mesinha ao lado da cama, pagina 75 marcada. As vezes ainda o folheio, na leve esperança de encontrar algum sinal, talvez você só tenha resolvido brincar, e tenha espalhado dicas de onde te encontrar pela casa. Ha dias que vou no parque, me sento em frente ao lago, alimento as aves, como costumávamos fazer aos finais de tarde.
  Talvez eu esteja criando muita expectativa em torno de sua volta. Quem sabe, eu esteja me afundando a cada dia, esteja arrancando pedaços de mim. Esteja me enganando, talvez  seja uma forma de não enxergar a realidade, a forma de não me permitir sentir a dor. Aquela musica me lembra tanto você, mas devo ser sincera comigo mesma.
  Em algum momento eu terei um súbito de raiva e apague todas suas lembranças, pelo menos as possíveis, as materiais. Rasgarei nossas fotos, quebrarei sua xícara, doarei suas roupas. E quando isso acontecer eu não permitirei mais suas surpresas em minha vida. Na verdade, creio que você já tenha decidido não me surpreender mais.

Imagem: We heart it

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